Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
Buzzer - Beater

Uma triste história

 

Mal tinha começado a época 2008/2009 da NBA e já uma equipa que fez dinastia na década que ia a acabar estava a renovar o plantel, que envelhecia gradualmente: os Detroit Pistons trocavam o experiente base Chauncey Billups pelo igualmente experiente Allen Iverson (mas menos estável em termos de personalidade). Billups contribui para dar a Detroit um campeonato em 2004 e umas quantas presenças nas Finais nos anos seguintes, mas o seu contrato pesava imenso nas contas da Cidade Automóvel. Iverson vinha de uma boa prestação em Denver, abaixo dos padrões que estabeleceu nas sua época de MVP e algumas seguintes em Philadelphia, mas compreensível com a idade.

 

Mas Billups não estava a sair pela porta dos fundos do clube: Detroit precisava de algumas remodelações e um base do pior lado dos 30 com um contrato que Detroit não podia acartar com objectivos de remodelação parecia aceitável. Aliás, Billups ia para Denver, a sua terra natal, onde possivelmente se iria reformar. Acabou por ser nas épocas seguintes a segunda opção na equipa, complementando o prolífico marcador da equipa, Carmelo Anthony. Mas o precedente estabelecido na época passada por Lebron James, Chris Bosh e Dwayne Wade, em que os três negociaram entre si contratos mais pequenos que lhes permitiam coexistir financeiramente no mesmo clube mudou a mentalidade de muitos jogadores e dirigentes. Os três passariam de astros a uma forte constelação.

 

Então outros jogadores começaram a seguir o exemplo, começando por Anthony: via que em Denver não iria conseguir o talento suficiente atrás de si para competir por um título e tratou de requisitar uma troca. Acabou por ir parar aos New York Knicks, onde outro astro, Amare Stoudemire, jogava. Mas como as equipas negoceiam entre si, e a NBA, como se tem visto ultimamente, pouco é mais do que um negócio, essa transacção iria incluir outro jogador de qualidade para Nova Iorque, dado que essa esta equipa, apesar de ir receber uma estrela, não queria perder todas as suas jovens promessas. Então Billups veio. Meio da época, jogador com 34 ou 35 anos, são-lhe retirados os planos de uma tranquila reforma daqui a poucos anos. Aborrecido, até acabou por ir na conversa porque ia para uma equipa para desafiar um título no ano seguinte.

 

Mas os Knicks sonham alto. Vindo um lockout prolongado, tiveram tempo para pensar nas opções. E afinal Billups nada mais era do que uma casualidade para obter Anthony, com um (ainda) grande contrato para 2010/2011 que lhe pagaria 14M, que estrangulava o tecto salarial dos ianques. Como os postes fazem falta nos dias que correm, e Nova Iorque não tinha nenhum capaz para os seus objectivos, e bases, apesar da importância da posição, há muitos, Billups foi novamente moeda de troca: é-lhe usada a cláusula de amnistia para retirar o contrato das contas de Nova Iorque, e o veterano foi parar aos 'waivers', uma espécie de leilão em que qualquer clube pode pegar nos jogadores colocados à disposição por outras equipas, vencendo quem fizer a melhor oferta.

 

Os LA Clippers, tendo já um negócio fantástico que lhes trouxe aquele que é na minha opinião o melhor base da liga, Chris Paul, presisavam de um atirador para o perímetro, e Billups, apesar de ser outro base, tinha as características necessárias. Mesmo depois de o jogador ter ameaçado não jogar se não pudesse escolher a equipa para onde iria (pensa-se que, traído por tantas organizações, o base quisesse fazer o melhor da situação e juntar-se aos Miami Heat, tornando a constelação a mais absoluta favorita ao título deste ano), os negócios apanharam-no.

 

Moral da história? Tal como Billups, Lamar Odom dos Lakers foi uma mera peça de negócio, apesar dos títulos e da coesão de balneário que trouxe à sua equipa ao longo de tantos anos como profissional da casa. O mesmo vai acontecendo com Brook Lopez, que vai sendo constantemente avaliado pelo seu valor de mercado para ser trocado com Dwight Howard, que também quer sair de Orlando. Ou até Rajon Rondo, que se falava ser parte de um pacote por Chris Paul antes de se confirmar o negócio com os Clippers. E assim as relações já tremidas que existiam entre os jogadores e os dirigentes na época passada e algumas anteriores caíram completamente por terra após o lockout. Hoje, just business. Sendo provavelmente os assalariados mais bem pagos e com mais regalias de todo o planeta, os jogadores da NBA conseguiram manter muito tempo uma posição de vantagem sobre os donos, mas, sendo estes que pagam as contas, acabaram por sucumbir a algumas exigências. Mas como toda a gente tem que ceder, os problemas que já existiam mantém-se quase inalterados, e garanto-vos que assim que este acordo salarial (que dura no máximo dez anos, não sei precisar) terminar haverá outra paragem de trabalho, porque os problemas ir-se-ão manter: jogadores medianos com salários de estrelas, prejuízos para equipas de cidades mais pequenas, and so on. Todas estas transações na hora, total desrespeito pela estabilidade dos jogadores, mas também o poder desmedido que alguns desses jogadores têm de, simplesmente, tornar equipas reféns das suas decisões ou exigências são um mero resultado de um lockout como este foi, prolongado, marcado por decisões economicistas para os dois lados, bem como alguma arrogância. Your bad jogadores, your bad, dirigentes.



publicado por Óscar Morgado às 16:13
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