Sábado, 16 de Abril de 2011
Porque ao Sábado se Destaca...

O Todo é muito mais que a soma das partes

Milhões vs Tostões

A Realidade concreta e a realidade ficcional 

Braga vs Manchester City

 

     Benfica, Braga e FC Porto qualificaram-se na passada quinta-feira para as meias-finais da Liga Europa. Desta forma, Portugal conseguiu pela primeira vez na história colocar 3 equipas simultaneamente numa meia-final duma competição europeia, feito apenas compartilhado com as gigantes: Alemanha, Inglaterra, Espanha e Itália. Sendo que apenas no que diz respeito à Liga Europa apenas Espanha e Alemanha já tinham alcançado também este feito.

Num plano geral em que o nosso país passa por uma grave crise económica e política o futebol mostra a outra face da moeda, nesta fase sem milhões mas com qualidade mandamos nós na Europa.

     Em primeiro lugar temos de enaltecer tamanho feito e acabarmos de uma vez por todas por descredibilizarmos o nosso mérito porque as grandes potências não se esfolam nesta prova. Esta é uma das maiores mentiras do ano, uma mentira onde o estatuto é usado como forma de deturpar a falta de competência.

     Pois bem na competência é que está o cerne da questão. Se a nossa imagem económica é vergonhosa no plano geral, no plano futebolístico ela também não é mais animadora. Pois bem, mas enganemo-nos de olhar para a realidade e traduzi-la por euros e milhões. Entendamos que a realidade é mais complexa e onde quer queiramos quer não duas palavras fazem toda a diferença: trabalho e cultura.

     Na cultura dum povo é que está o seu suor, a sua capacidade de sofrimento, a sua maneira de encarar os desafios e superar as dificuldades, de encontrar mecanismos para resolver todas as contrariedades. O desporto em geral e o futebol em particular são uma escola de vida, o reflexo da sociedade. E por isso tanto no desporto como na vida as ideias, o trabalho, a competência prevalecem sobre o dinheiro. Uma luta titânica entre o bem adquirido e o bem recebido.

     No futebol em Portugal forma-se treinadores, formam-se departamentos fortíssimos de prospecção, encontram-se mais rápido as pérolas prateadas sul-americanas para as vender a preços de platina. Por isso em Portugal formam-se ideias, estabelecem-se sistemas de jogo, formulam-se alternativas, adquire-se uma identidade de jogo forte mas ao mesmo tempo flexível com a qualidade do adversário. Em Portugal não temos 9 milhões de euros para pagar a um jogador por ano. Mas em Inglaterra a equipa desse jogador foi goleada por uma equipa que foi eliminada pelo Braga. Ora no Braga a maior parte dos jogadores não ganha numa vida inteira o que esse jogador ganha num mês. No Braga investe-se 10 milhões, nessa equipa investem-se quase 300 milhões. O Braga está na meia-final, essa equipa nem chegou aos quartos.

     O dinheiro caído do céu não nos transcende, não nos faz buscar a perfeição, não nos faz trabalhar, mima-nos e descontraí-nos com facilidades. Mas na hora da verdade, na hora do jogo, na hora das decisões tanto na vida como no futebol milhões mais milhões podem dar  0 e tostões mais tostões podem dar milhões. Estes sim são os verdades milhões, os milhões do sucesso, os milhões de festejos, os milhões de gritos os milhões de cânticos numa cidade em polvorosa por estar nas meias-finais duma competição europeia. Porque o todo é mais que as somas das partes. Porque jogadores de classe mais jogadores de classe mundial não dão necessariamente equipa de classe Mundial.


     O todo a equipa… o todo o país é um sistema inter-relacionado. Onde existe simultaneamente uma apetência autónoma e uma apetência integradora de cada parte. O sistema é hierárquico e existem dois tipos de informação dependente desse mesmo carácter hierárquico. A informação prática vem da parte superior do sistema para a parte inferior. São as ideias, a identidade de jogo, a filosofia de jogo, o modo de conceber e tratar a bola, de ocupar os espaços, de ter coerência tendo em conta as necessidades do jogo, essa mesma ideia abstracta formulada pelo treinador é executada pela parte prática dos jogadores. Aqui o mecanismo de execução prima pelo concreto. Contudo simultaneamente existe uma flexibilidade do sistema. Daí que os relatórios que as partes inferiores enviem aos seus órgãos superiores façam moldar a estratégia… moldar a ideia abstracta em prol do mesmo objectivo comum, mas como novos mecanismos de execução mantendo a identidade autónoma da estrutura. De modo a tornar a própria execução mais próxima da realidade e o mais simplificada possível. Nesta função integradora cada parte inferior responde bem e executa o seu papel com clareza. O todo regozija-se e fortalece deste modo a sua autonomia e a sua competência, mesmo não dependo excessivamente de nenhuma das partes. Este é o sistema da vida… este é o sistema do futebol… o sistema da ocupação defensiva do Braga, do encurtamento de espaços defensivos, e nas transição rápidas, com 3 homens bem abertos, com mecanismo simples e com uma filosofia concreta e identitária.

     Noutras equipas as partes perdem a sua função integradora e tentam-se transcender, o todo diminuí os fluxos de ligação com as partes e o sistema quebra-se, a identidade multiplica-se na exacerbação das partes e perde-se os elos de ligação. Por isso as partes de milhões passam a tostões.

No Braga a simplicidade acontece com recurso às limitações das partes, à consciência dessa mesma limitação que faz a equipa trabalhar e colmatar a pouca autonomia das partes, mas devido ao entrosamento colectivo fortalece o todo.

     Por isso o Braga ganha, por isso o Braga surpreende-nos, por isso o Braga faz história.

     Esta é a nossa mensagem: primeiro a identidade e as ideias, a cultura e o modelo de jogo, depois o sucesso e o seu usufruto, os milhões e as conquistas.

     Primeiro o trabalho depois o dinheiro. Primeiro formar uma equipa depois vender jogador. Esta é a gestão do futebol português, que exporta o ouro e os diamantes a preços baixos e os vende em mercados elevados a preços exorbitantes. Esta é a nossa filosofia desportiva, esta é a nossa identidade cultural. Por isso somos um sistema organizado que tem sucesso. Outros gozam connosco mas agora ficam a ver-nos pela televisão.

     Este é o nosso património para o Mundo: trabalho, competência e coerência. Porque só assim podemos vencer. Por isso Alan+ Paulo César + Lima dão mais do que Tévez+ Dzeko+ Silva. Esta é a realidade pura acabemos com as nossa ficções, com os nossos deslumbramentos e valorizemos o produto nacional.

     Este é o nosso destino que funciona no futebol, porque não há-de funcionar na vida? Futebol é cultura e cultura é Futebol e daremos as voltas que quisermos, perdemos ou ganhemos mas a realidade será sempre complexa e o todo será eternamente mais que a soma das partes.

     Por isso eu acredito que esta será a nossa vitória? E tu?

 

 

by João Perfeito

 



publicado por João Perfeito às 10:50
editado por Sarah Saint-Maxent em 22/04/2011 às 12:21
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