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Minuto Zero

A Semana Desportiva, minuto a minuto!

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30
Out10

Porque ao Sábado se destaca...

Minuto Zero
Cardozo- O útil tem de ser belo ou o belo tem de ser útil?
O futebol como um pedaço de cultura

Nota prévia: Este artigo surge a propósito da ineficácia ofensiva do Benfica após a lesão de Óscar Cardozo contra o Schalke 04. O artigo foi escrito antes do Benfica-Paços de Ferreira

No nosso quotidiano é comum discutirmos se o jogador a é melhor que o b, falando puramente em “futebolês”, contudo muitas vezes essas conversas são intermináveis e não nos levam a lado nenhum.
Mais do que definir a nossa preferência, a nossa identificação pessoal é necessário entender o futebol como um pedaço da nossa cultura, o futebol como um todo organizado onde aplicamos os nossos valores.
Daí que as preferências dependam de valores e não de jogadores. Valores da vida e não valores futebolísticos.
Ser fã de Óscar Cardozo ou detestá-lo é uma dessas escolhas. Mas afinal o útil tem de ser belo ou o belo tem de ser útil?
É neste paradigma que se situa o ser humano, e nestes dois caminhos apenas temos de escolher um.
Historicamente há mais de 2000 anos, onde o futebol nem se quer estava em fase embrionária esta problematização nasceu no confronto dos ideais gregos e romanos. Para os gregos a técnica, a originalidade, a arte tinha um funcionalismo religioso. O belo era por definição Bom. Daí que para eles o útil tivesse que ser belo, daí que eles tentassem encontrar o modelo do mundo natural, fugindo ao retrato humano. Para os romanos tudo tinha que ter um cunho utilitário, eficácia e organização. Todas as construções tinham uma função inerente à facilidade de vida das pessoas. O realismo abundava e o retrato era o expoente máximo da ideologia de mostrar os humanos tal como eles são.
Avançado 2000 anos adaptando para o futebol, percebemos através deste exemplo o porquê de Cardozo ser um jogador controverso de opiniões.
Para aqueles que tem os valores dos gregos, a sua falta de técnica, a sua falta de criatividade e a sua falta de proporcionar espectáculo (função religiosa, comparando com os gregos) é um jogador banal. Não existe beleza nas suas execuções, por isso não é bom. Para os gregos o belo era bom por definição. Mas tal como os gregos tentassem na escultura fugir ao retrato humano, os críticos de Cardozo fogem á essência do futebol, fogem ao mais importante.
O mais importante é que a execução tenha um cunho utilitário, seja eficaz e permita enquadrar-se num sistema organizado. Se para os romanos as construções tinham uma função utilitária, para Cardozo as execuções têm igualmente uma função utilitária: golos. O retrato, o realismo é este. Cardozo é o que demonstra, sem magias sem originalidades sem fuga ao essencial, sem mistificar o seu valor. O retrato de Cardozo mostra aquilo que ele é e não o endeusa. Daí que tenha uma utilidade mais pragmática, mais decisiva e mais eficaz. Porque ele dá-nos a essência do futebol. Golos, vitórias, assistências e campeonatos. Seja em cima da linha de golo, seja a 30 metros da baliza os seus golos são sempre úteis mesmo que raramente sejam belos. Mas os golos é que dão campeonatos e prestigio, as assistências é que permitem aos colegas brilharem. Cardozo é o pragmatismo na sua expoente máxima: elevada capacidade para marcar e assistir para dar aquilo que todos queremos: golos- pouco nos interessando na forma como os alcança. Porque o que interessa são vitória e não ilusões, golos e não espectáculo, remates e não fintas, campeonatos e não títulos de equipa mais empolgante.
Então e agora o útil tem de ser belo ou o belo tem de ser útil?
Talvez seja por o belo ter de ser útil que o Império Romano conseguiu disfarçar as suas heterogeneidades num longo período de tempo enquanto o grego caiu em menos tempo. Talvez seja por isso que Cardozo irá ser o maior estrangeiro de sempre do Benfica. Talvez seja por isso que Miccoli, Valdo, Magnunsoon, Suazo, Cannigia e Van Hooidjonk nunca brilharam tanto no Benfica.
Mas para aqueles em que o útil tem de ser belo, Cardozo eternamente será um jogador banal. Não há nada a fazer, são valores de vida, não são valores futebolísticos.

by João Perfeito

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