1 a zero:
De João a 30 de Dezembro de 2010 às 15:38
Antes de mais parabéns pela crónica. Não que já não tenhas feito boas crónicas, mas esta está especialmente está muito boa.
Acho que tocas-te num ponto fundamental poucas vezes mencionado, quando dizes que Mourinho não inventou nada de futebol.
Ele não precisa, já está tudo inventado. Às vezes o mais difícil é fazer o fácil, isto é produzir processos simples, pragmáticos que contenham as "leis tácticas " do futebol.
Deois falas-te noutro ponto fundamental, a inteligência. Num mundo global que vivemos, cada vez mais todas as equipas conhecem os processos tácticos das outras. Não há surpresa. A vitória ou a derrota dependem da forma como se joga no contexto do adversário. Mecanisando os tais processos sem perder a nossa identidade, o nosso ADN futebolístico mas ao mesmo tempo fundindo-as com os mesmos processos do adversário. É esta inteligência que permite que as equipas mais equilibradas sejam sempre as melhores. Porque quando atacamos temos já de estar posicionados para defender quando perdemos a bola e vice-versa. Isto sim uma inovação de fim de anos 80 princípio de anos 90.
Talvez por isso as selecções africanas percam irremediavelmente a luta por terceira potência do futebol mundial com as asiáticas. E sobretudo, o ponto de viragem do futebol, as selecções sul-americanas percam a hegemonia que outrora foi sua sem contestação para as rivais do velho Continente. No virar do milénio (últimos 3 Mundiais) apenas tivemos duas presenças de selecções sul-americanas nas meias- finais (Brasil e Uruguai) contra 9 europeias (Alemanha 3, Turquia, Portugal, França, Itália, Espanha, Holanda) e uma asiática (Coreia do Sul).
Por isso cada vez mais a táctica e a força mental superaram a técnica por si só.

Por isso o Barcelona é "uma equipa que tem telhados de vidro" e mais cedo ou mais tarde, vai cair.
O Barcelona é a última vaga- do futebol puramente espectacular, abundância técnica, utilização massiva do passe e uma posse de bola arrebatadora.

O futebol depende dos contextos, daí a melhor equipa do Mundo de 2010 ser o Inter (porque ganhou a Champions), mesmo que se jogasse o campeonato espanhol marque menos 40 golos que o Barcelona.


De stevefg_8 a 30 de Dezembro de 2010 às 16:13
Obrigado João ;) mas nao concordo com o que disseste agora do Barcelona. Penso que está nos genes deles jogar bom futebol e isso nao vai desaparecer assim tão facilmente. eles além desse futebol, possuiem uma inteligência invulgar para saber o que hão-de fazer à bola,etc. é uma equipa perfeita.
No entanto,respeito o teu ponto de vista.
Quanto à ultima parte do teu comentário, sendo eu um apologista dos resultados em detrimento do espectaculo, concordo contigo. Porém, há casos, como Holanda de Cruyff, Brasil de 82 ou Barcelona da época passada que, nao ganhando nada que é o essencial, ficarão recordados como das melhores equipas de sempre pelo seu futebol. perder por perder, ao menos que se perca de cabeça erguida :)


De Tiago Luís Santos a 30 de Dezembro de 2010 às 20:35
Concordo com o Steve no que toca ao bom futebol
João se falas numa equipa que como ninguem é eximia nas transições ofensiva e defensiva é o barcelona. Certo é que existem várias formas de executar as transições. No Barcelona quando perdida a bola os jogadores não recuam. Dá-se o pressing imediato. O jogo de Triangulos do seu 2x3x2x3 coloca quando em pressão alta o adversário numa situação extremamente complicada. A transição ofensiva baseia se numa dinâmica de jogo apoiado, longe dos 3 ou 4 toques de uma equipa de José Mourinho. 8,9,10 toques são normais numa transição da equipa Culé... estamos a falar de dinâmicas e de cultura... acho que é impossível dizer se uma (jogo mais directo e de contra-ataque vs jogo apoiado em pressing defensivo alto) é mais errada ou correcta que outra...

Penso ainda que não foi nos anos 80 que se inventou esta nova dinêmica. Vejam um jogo da Chamada Laranja Mecanica (Holnada 74) ou da selecção Hungara dos anos 54 e percebam o que vos estou a dizer...


De João a 30 de Dezembro de 2010 às 23:49
Na minha opinião devido à qualidade da sua posse de bola não é pelo pressing que o Barça consegue efectivar o seu jogo. Porque a equipa sempre que recupera a bola em zonas altas ou perto da sua área tenta logo organizar o seu jogo, salvo raras excepções em que Messi ou Villa descobrem espaços vazios.
A qualidade da sua linha defensiva e do seu meio-campo permite-lhes ter muitas linhas de passe após a recuperação da bola. Deste modo o pressing apenas permite ter mais bola, porque o adversário muitas vezes perdea logo, mas a qualidade de jogo não aumenta. O pressing deve ser utilizado quando o adversário está bloqueado mentalmente e assim o Barça consegue conciliar a vitória com goleada e 80% de posse de bola. Mas o Barça não é menos equipa nos jogos em que tem 60% de posse de bola e o seu adversário tem um ataque mais organizado. O problema do barcelona é os espaços que deixa na sua defesa, especialmente laterais. A venda de Yaya Touré ao longo da época vai provar que esta equipa precisa de maior equilíbrio. Por outro lado existe muito espaço entre os centrais e os laterias, que devido ao posicionamento destes últimos em zonas muito ofensivas é difícil recuperar o espaço quando a adversário saí rápido. Não se pode admitir que uma equipa como o Barça tenha 81% de poesse d ebola no jogo contra o Ceuta para a Taça e conceda três oportunidades de golo em apenas 45 minutos.

Aliás se reparem o Barcelona perdeu os seus únicos pontos no campeonato a jogar em casa? Porque razão? Porque a sua teia foi quebrada e o adversário sobreviveu ao pressing.

Fora de casa a equipa tem uma postura táctica diferente e os resultados estão á vista- nenhum ponto perdido.

As selecções da Hungria e da Holanda nos periodos referidos podem ter muitos destes princípios ofensivos, contudo a articulação ofensiva/defensiva que falei. Atacar e defender ao mesmo tempo é algo recente. Daí que estas duas equipas sejam espectaculares, mas na minha maneira de ver o desporto "são espectaculares de mais" e é isso que as impediu de vencer.


De Tiago Luís Santos a 31 de Dezembro de 2010 às 00:00
O pressing é chave para a forma de jogar. Desta forma a recuperação é feita longe da sua área defensiva possibilitando que a equipa não se desiquilibre, encurtando espaços...o posicionamento dos laterais é crucial na forma de jogar. o 2x3x2x3 que eu falo, resulta disso mesmo. No momento ofensivo os centrais abrem, afastando-se, Pique sai em posse ou passe longo, Busquets como pivô baixa para garantir equilibrios, os laterais (em especial Daniel Alves) sobem no terreno. Nesta lógica toda a equipa sobe 20m no terreno. Passa-se a jogar no meio campo adversário, ou seja mais afastado da zona defensiva do barça. Perdendo a bola numa zona adiantada existe a possibilidade de reconstruir a linha defensiva, e em pressing alto o adversário não consegue tirar proveito dos desiquilibrios que a subida dos defesas (laterais e centrais) podem provocar... Claro que nem todos os dias isto funciona..mas na maior parte sim... as derrotas desta época são apenas maus dias ou erros esporádicos.


De Tiago Luís Santos a 31 de Dezembro de 2010 às 00:02
Vê os jogos. Não os lances de golo. Os jogos. Já tive essa oportunidade.Vais constatar que não há só processo ofencivo e defensivo em separado, mas sim os 4 momentos bem definidos: defesa, ataque, transição defesa-ataque e ataque-defesa


De Tiago Luís Santos a 31 de Dezembro de 2010 às 00:05
Claro que são ritmos de jogo diferentes. Mas era mesmo nessa inovação que estas equipas se tornavam incríveis... chamado "futebol-total" tem como base esse mesmo principio, o fio-condutor das transições


De Tiago Luís Santos a 31 de Dezembro de 2010 às 00:07
Mais uma coisa. Este Barça tem algumas fragilidades ao nível da profundidade do plantel, o que em nada tem haver com isto. Não existe no plantel um jogador para desempenhar uma função semelhante à de Xavi, dai a insistência em contratar Fabregas,mas, e muito devido à péssima gestão dos ultimos anos de Laporta, um plantel extremamente curto em termos de opções.


De João a 31 de Dezembro de 2010 às 00:21
O facto de Busquets baixar permite que os centrais subam especialmente Piqué e permite que a equipa jogue o seu futebol "geométrico" e em triangulações. Jogadores sobem, sempre dpelo menso duas linhas de passe abertas e o fundamental jogar para a frente e para trás, porque quem está atrás vê o jogo na sua plenitude e por isso organiza-o da melhor forma, daí que o Barça seja das poucas equipas do Mundo que ao jogar para trás está a desequilibrar o adversário. Esta cultura de jogo na minha opinião não necessita do pressing porque a equipa alarga-se no campo todo, fruto da suca capacidade técninca e de transicção ofensiva, consegue a partir de um lançamento de Valdés obrigar o adversário a recuar e quando não o faz, Xavi ou Iniesta baixam e resolvem o problema. O Barcelona em qualquer zona em que recupera a bola pode efectivar o seu modelo. Aliás ve-se isso num pontapé de baliza. O pressing não tem de ser abolido, porque exitem circunstância em que sem o pressing existe espaçamento entre linhas e os contra-ataques do adversário tem tudo apra ser fulminantes. Ao barcelona falta-lhe definir os timings.
Esta é a diferença entre o Barcelona e a Espanha.A Espanha individualmente é mais fraca, mas é tão boa a defender como a atacar. Os laterais são pontos de equilibrios (curioso nenhum joga no Barcelona). Com Xabi Alonso a posse de bola consegue ser mais valorizada na zona central e o passe curto abunda independente da zona do campo. No Barcelona existe o passe médio em zonas adiantadas. A Espanha perde a bola e não faz um pressing tão alto. Os adversários atacam mais mas criam pouco perigo. Esta é a diferença. Daí que a Espanha seja para mim quase perfeita.(Muito difícil tentar melhorar)

O Barcelona com Daniel Alves em vez de Ramos, Abidal em vez Capdevilha, Messi em vez de Xabi Alonso (claro que não é uma comparação- mas o resto é tudo do Barça) individualmente é bem mais forte, mas colectivamente mais fraco.


De Tiago Luís Santos a 31 de Dezembro de 2010 às 13:15
João imagina esta situação: o Barça perde a bola nas imediações da área adversária e recua o seu Bloco, utilizando um pressing Médio-Baixo. Depois recupera a bola já no seu meio campo.
Nesta situação, Xavi, Iniesta, Messi, Villa, Pedro e mesmo Dani Alves estão a 50 m da baliza adversária. O Barça joga apoiado, logo demora a chegar às imediações da área adversária. Em vez de 8 a 10 passes, teriam de executar 15 a 20... isto para além de por em risco a sua própria consistência defensiva... isto é um non-sense. Para o estilo de jogo do Barça e da selecção espanhola, o pressing alto, ou Médio-alto, é essencial para garantir o bom funcionamento do padrão de jogo, tanto ao nível ofensivo como defensivo.
Em 2008, com 4x1x3x2 (Cassillas, Ramos, Pique, Puyol, Capdevilla; Senna; Iniesta, Xavi, Silva; Torres e Villa)a selecção espanhola via-se a contas com muitos jogadores com dificuldades na transição defensiva. Necessitava do pressing alto porque caso contrario iria expor em demasia as costas do "3" do meio campo, deixando Senna desapoiado (olha é um pouco o que acontece no Benfica este ano, Javi fica atrás, Aimar, Salvio e Gaitan tem enormes dificuldades em recuperar, logo, é mais do que na época passada, necessário pressionar Médio-alto ou Alto). Em 2010, Del Bosque abdicou de Torres, e colocou duplo-pivô, com Xavi e Iniesta voluntariosos sempre por perto de Xabi e Busquets. Isto permite que a selecção espanhola possa abdicar um pouco do pressing alto, conseguindo recuperar a bola um pouco mais atrás. Uma forma de jogo mais "pragmática", numa lógica de "contra-ataque em posse"e por isso ritmo baixo. Talvés por isso mesmo, esta Espanha foi menos espetacular, sendo por muitos criticada por ganhar apenas por 1-0 as partidas, e baixar o ritmo do jogo em demasia em certos momentos. Acho esta selecção espanhola incrivelmente pragmática, porque não arrisca o pressing alto, reforça o meio-campo, e na face ofensiva aposta numa troca de bola infindável que desgasta enormemente o adversário. Perde no entanto capacidade criativa e um pouco do "bom futebol". Confesso que aprecio mais a forma de jogar da Espanha de 2008 e do Barcelona de Guardiola, mas acho que esta selecção espanhola é de facto uma selecção incrivel, ajustada ao modelo competitivo do futebol actual e consistente. As derrotas com Portugal e Argentina são quanto a mim episódios esporádicos, acho que não terão grande importância de futuro.


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