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Minuto Zero

A Semana Desportiva, minuto a minuto!

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Minuto Zero

09
Nov10

As "patologias crónicas" do Benfica de Jorge Jesus

Minuto Zero
Depois de uma época de sonho um cair na realidade do futebol moderno (Dominação vs Controlo) ? 
Pode uma equipa dita de top jogar da forma que Jorge Jesus quer o seu Benfica?
Podem últimos resultados do Benfica colocam o trabalho de Jorge Jesus no ultimo ano e meio em causa?


Um resultado como o de Domingo pode conduzir a um "abismo" psicológico, mas também pode ser um ponto de viragem. Questões psicológicas à parte proponho que nos foquemos numa outra questão.
 Os problemas do Benfica não advém somente de um jogo pouco conseguido. Longe dos holofotes e de todo o "frisom" causado pelo histórico resultado do clássico, proponho uma análise um pouco mais lúcida sobre o actual campeão nacional.


O problema é sintomático e recorrente: partindo do seu 4x1x3x2 de base, o Benfica de Jorge Jesus procura jogar em pressing alto, com bloco médio\alto, que baixa normalmente um pouco quando percebe que o adversário se "deslumbra" com espaços dados, procurando recuperar a bola em momentos fundamentais nos quais o seu adversário se desequilibra completamente devido ao seu balanceamento.
Em transição ofensiva varia entre lançamentos para o médio-ala esquerdo, que em velocidade tenta aproveitar o espaço entre o lateral e os jogadores de zona central (revejam os movimentos de Dí Maria na época passada), ou então em posse, criando rupturas pelos movimentos dos jogadores ofensivos nas costas de Cardozo (Aimar, C.Martins ou Saviola), em diagonais constantes.
Este era o Benfica campeão nacional 2009\2010 no momento ofensivo.
Na transição defensiva Ramires fecha aproximando-se de Javi Garcia, 6 de altas rotações, Dí Maria fecha na esquerda (corpo presente a defender, sempre na ansiá de se lançar em velocidade assim que a equipa ganhe a bola novamente), Aimar fecha também como pode, mas sempre evitando desgastar-se em demasia.
Se na liga portuguesa, face a adversários que facilmente sofriam golos face a este fantástico momento ofensivo, a verdade é que face a adversários que aproveitam os desequilíbrios naturais de quem joga apenas com um Pivô defensivo tão desapoiado, o Benfica não só sente dificuldades como acaba por perder.
Em 2009\2010 o Benfica marcava "quase" sempre primeiro, e depois aproveitando a necessidade do adversário abrir um pouco mais o jogo, entrava no seu momento favorito do jogo, baixando o bloco e cilindrando em transições ofensivas dignas de um grande europeu. Viveu no entanto sobre o estigma de nunca conseguir virar resultados. Porque? Primeiro sintoma, porque tendo de assumir o jogo face a um adversário sem a necessidade de marcar abria brechas sobretudo ao nível do meio-campo (zona onde Javi ficava "só" muitas vezes), sendo muitas vezes apanhado em contra pé. Neste momento especifico de resto, não era especialmente eficaz ofensivamente, sendo obrigado a trocar bola, mostrando quase sempre défice de objectividade. Este problema está na base, segundo o próprio Jorge Jesus, das contratações de Jara e Gaitan.
Segundo sintoma: contra Liverpool e Fc Porto (na segunda volta), o Benfica vê-se a jogar contra equipas fortes na transição ofensiva, com jogadores rápidos e mais que tudo, com capacidade táctica para aproveitar os espaços que a própria forma de jogar do Benfica propicia, aproveitam para "dar" a posse ao clube da Luz, momento no qual, como já referi, o Benfica versão 2009\2010 não era especialmente competente. Depois, aproveitando as percas de bola dos encarnados, lançam transições rápidas sobre a defensiva do Benfica, a maior parte das vezes desequilibrado em 4x1--3x2. Jorge Jesus via então a sua equipa partida em dois, em contra-pé. Resultado: contra Torres, Hulk, Bellushi ou Falcão, derrotas em jogos importantes.
Com as saídas de Ramires e Di Maria, a equipa perde não todos os desequilíbrios causados nos momentos ofensivos, como, o apoio de Ramires sobre Javi Garcia, que por vezes encobria a patologia deste Benfica.


Olhemos agora para esta temporada. Contra Guimarães, Nacional e Académica, o Benfica é apanhado em contra-pé em todos eles, face a adversários que, face à qualidade do futebol da época passada, facilmente derrotou. A falta de forma de Maxi, Luisão ou David Luiz, e sobretudo de Javi, e é claro, a dificuldade de Roberto em se encontrar, agravam ainda mais as tais "patologias" da forma de jogar do Benfica.
Na liga dos Campeões, contra Shalke e Lyon (3ªjornada), a mesma questão: equipas com qualidade na forma como colocam em cheque a defensiva benfiquista, sobretudo em contra-ataque, chegando ao golo com facilidade.
No Dragão, o Benfica perde não só o jogo como, coloca a nú, para quem ainda não tinha visto, a patologia de que tanto falo deste Benfica.
Em 4x1x3x2, que varia normalmente em função de pequenos pormenores dos adversários, quer seja para 4x1x3x1x1, como para um 4x1x2x3 assimétrico, Jorge Jesus coloca Javi desamparado, obrigando Aimar, C.Martins e Gaitan ou Coentrão, a baixar, aproximando o 3 do meio-campo, ao 1 (Javi), tentando assim, com maior proximidade entre os jogadores, facilitar as ajudas. Falta aqui o especialista nos equilíbrios. Se Ramires agora joga em Londres, Rúben Amorim parece ser o jogador com as características mais próximas do ideal para a função. Com C.Martins como interior direito, o Benfica perde claramente o apoio a Javi.
Jorge Jesus já percebeu isso mesmo como é óbvio, tendo contra Lyon e Porto modificado o meio campo.
Na Luz, contra os franseces, Jesus lança C.Martins na posição 10 (Aimar estava indisponível), com Salvio (médio-ala, sem grandes rotinas defensivas) e Peixoto sobre a esquerda, fechando por dentro e permitindo também a Coentrão abrir uma autentica clareira na defensiva do Lyon, partindo da posição de defesa-esquerdo.
No Dragão, já com Aimar, Jorge Jesus lança David Luiz como defesa-esquerdo, libertando Coentrão para o meio-campo, ao lado de C.Martins (mais uma vez com função ofensiva pela zona central) e Salvio. Ao intervalo, JJ puxa Coentrão novamente para a lateral, colocando Gaitan sobre a meia esquerda (médio-ala, tal como Salvio, sem rotinas defensivas). Resultado: pela zona central, Bellushi e Moutinho engolem o meio campo do Benfica, permitindo entregar a bola a Hulk e Varela em zonas próximas da área do Benfica.
Mais uma vez, em momento defensivo o Benfica fica em 4x1---3x1x1, com um enorme espaço entre as linhas do meio-campo, que não prestam o apoio devido a Javi.
Claro que o futebol não são só números, mas a questão táctica é indissociável a todas as outras questões no futebol de elite. São erros de base que provocam desequilíbrios tácticos e mentais.


Basta um olhar sobre os melhores clubes europeus para se perceber que no futebol moderno não é possível jogar apenas com um médio de propensão defensiva, sem pelo menos um apoio mais directo de um companheiro de sector:


Real Madrid: 4x2x3x1
Barcelona: 4x3x3
Valência: 4x2x3x1 ou 4x4x2 clássico 
Chelsea: 4x3x3
Arsenal: 4x3x3
Man.Und: 4x4x2 clássico
Man.City: 4x3x2x1
Tottenham: 4x4x1x1
Liverpool: 4x2x3x1
Milan: 4x3x3
Juventus: 4x4x2 clássico
Inter: 4x2x3x1 (4x2x1x3)
Bayern: 4x2x3x1


De todos, apenas o Bayern mostra muitas vezes este género de dificuldade nas transições defensivas, mas neste caso existem mesmo 2 médios centro (Bommel e Swinsteiger) que aparecem no entanto desamparados visto que Ribery e Robben não tem grandes rotinas defensivas, enquanto Muller, habitualmente nas costas do avançado, surge muito longe. Resultado: de 4x2x3x1, no momento defensivo torna-se 4x2---2x1x1, partindo-se em 2. Mas reparem que existem 2 médios-centro, enquanto no Benfica é apenas 1.
Duplos pivô ou meio campo com 1 pivô defensivo e 2 interiores que dominem as duas transições são condição essencial no futebol moderno de top. Nessa lógica Jorge Jesus tentou fugir à regra, mas parece não conseguir contrariar a tendência. 


By Tiago Santos


Fonte: maisfutebol.iol.pt