Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
Voleibol à Sexta

Ter a coragem de não ganhar

Estamos no aquecimento, prepara-se o jogo, referente ao campeonato regional de iniciados masculinos, entre o SL Benfica e o CN Ginástica. Os comentários são expressivos, adivinha-se uma vitória fácil para o Benfica, apesar da discrepância de qualidade técnica entre jogadores desta formação. O facto é facilmente explicado: estamos perante uma equipa em que alguns atletas já têm formação e onde outros estão a dar os primeiros passos no mundo do voleibol (alguns começaram a treinar apenas no início desta época, em Setembro).
No primeiro set, que começa equilibrado, surgem as dúvidas. O treinador põe em campo um seis que não é, à partida, o mais forte. Trata-se, claro, de dar tempo de jogo aos jogadores novos, construir um espírito de equipa forte, impedir aqueles que têm, para já, menos técnica ou experiência de ficarem associados à imagem do “jogador de banco”. O set acaba a pender para o lado do CNG, tal como o jogo, 1-3, depois de quase duas horas.
E a questão põe-se: sabendo o treinador do Benfica que tem uma equipa capaz de vencer o CNG facilmente, até que ponto é uma mais-valia deixar de vencer para que todos os jogadores entrem em campo? Até quando pode um treinador escolher a pedagogia em prol da vitória e da competitividade?
Numa equipa de juniores, uma escolha destas – a não ser em casos muito específicos relacionados com questões internas ao clube, sobretudo quando dizem respeito ao comportamento de atletas – seria um erro crasso. Mas onde se deve, então, estabelecer o limite?
Na minha opinião, acima do escalão iniciado não deve favorecer-se a questão pedagógica acima da competitividade, até porque pode acabar por ser contraproducente. Ao sujeitarmos uma equipa esforçada a uma derrota que poderia ser evitada pode dar-se o caso dos melhores jogadores, aqueles que poderão ser excelentes jogadores – porque, convenhamos, nem toda a gente tem o mesmo talento para “a coisa” e nem toda a gente se esforça o mesmo, como em tudo – perderem o estímulo que os fará ser melhores. Pode acabar-se com a vontade, o entusiasmo e a força de vários jogadores de uma equipa ao escolher a derrota sistemática para benefício de um ou dois jogadores.
Este limite, no entanto, não pode ser inflexível e invariável: há que ter em conta o estado geral da equipa. Os exemplos que demonstram uma variação, para cima e para baixo, são fáceis de encontrar: relembremos a equipa de iniciados do Benfica de há 3 anos, que vencia jogos contra juvenis e juniores e tinha uma qualidade praticamente ímpar; ou, no sentido inverso, uma equipa de juniores em que castigos a atletas (normalmente por questões disciplinares) levam à escolha de um seis mais “fraco”, por parte do treinador.
No fim de contas, há que dizer que a decisão do treinador, neste jogo particular, foi, para mim, acertada: no seguimento do que disse aqui a semana passada, dá-se mais um passo para pôr novos miúdos a jogar. Porque, claro, treinar várias horas por semana e chegar ao fim-de-semana para ficar no banco não faz bem à auto-estima de ninguém e pode acabar com a motivação inicial muito rápido.

by Sarah Pires Saint-Maxent


publicado por Minuto Zero às 00:39
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1 a zero:
De João a 29 de Outubro de 2010 às 13:12
Na minha opinião a utilização integral do banco de suplentes é sempre uma má aposta. O importante é tentar requilibrar a equipa e potencializar os melhores jogadores. os jogadores mais fracos apenas podem progredir integrados com os mais fortes e os mais fortes necessitam d ejogar para se manterem confiantes e com ritmo. Daí que a gestão passe por uma mistura entre as duas vertentes, de modo a diminuir as assimetrias entre a propria equipa.

Quanto á motivação, como em tudo na vida depende do empenho. Treinando todos os dias e sendo perfeccionista facilmente os mais fracos chegam ao nível dos mais fortes.

Mas em portugal os jovens não treinam um desporto todos os dias e isso faz toda a diferença.


De Óscar a 29 de Outubro de 2010 às 16:19
Não concordo de todo que se sacrifiquem princípios de formação no desporto por resultados desportivos quando se fala em escalões de formação. Tal como a Sarah referiu acima, fazer o que o treinador do Benfica fez ao nível de juniores seria de facto um erro (até porque o escalão, penso que no voleibol também é assim, tem já um papel de transição entre a formação e o "modelo competitivo" de seniores), mas a nível de iniciados concordo plenamente. Dou-vos o exemplo do basquetebol em Portugal onde nos iniciados o regulamento pedagógico prevê que, dos 12 jogadores inscritos no jogo, 5 joguem o 1º período integralmente, outros 5 o 2º e os 2 restantes o 3º inteiro. As substituições ocorrem apenas em caso de lesão nos 2 1ºs períodos. Se alguém souber de outro desporto onde haja uma regra deste tipo a nível de formação gostaria de saber. E tal como me ensinaram na formação de treinadores de basket nos escalões iniciados quer-se primeiro formar jogadores e só depois equipas. E creio que mesmo com jogadores com grande nível técnico não têm grande benefício em ver apenas vitórias no seu percurso desportivo. A confiança é algo que um jogador vai tendo nas suas capacidades, e obviamente estas práticas estão sempre sujeitas ao bom senso dos treinadores. E portanto, boa prestação no treinador do Benfica neste caso, que ao equilibrar o tempo de jogo de todos os seus atletas não só contribuiu para a sua formação mas também para um espírito de equipa maior, ainda que não potencie o resultado máximo em termos competitivos.


De Sarah Saint-Maxent a 30 de Outubro de 2010 às 00:47
óscar,

obrigada pela referência: por acaso tinha ideia dessa regra mas não a certeza de onde e como seria aplicada.
é notável que as federações integrem nos seus regulamentos indicações deste tipo, sem dúvida...


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