Quarta-feira, 4 de Julho de 2012
Passe de "Letra"

O Euro 2012 acabou para Portugal. Sem querer entrar em questões técnico-tácticas sobre a prestação da selecção que, na minha opinião, foi excelente, importa, primeiro, realçar alguns aspectos sobre este Europeu.

Este campeonato da Europa deve ter sido aquele em que menos portugueses foram apoiar a selecção nacional aos estádios de Polónia e Ucrânia, o número de adeptos portugueses nos cinco jogos disputados variou entre os dois mil e os cinco mil. Pode-se aferir imediatamente uma justificação, terá sido efeitos da crise? Talvez e não só. É óbvio que a profunda crise em que o país se encontra mergulhado não ajudou em nada a que os portugueses tirassem umas férias antecipadas e fossem até à Ucrânia apoiar a selecção, mas isto não explica tudo.
Com a extensa cobertura dada pelos três canais generalistas e seus respectivos canais de informação, em adição à cobertura da Sporttv tivemos vários depoimentos das autênticas “aventuras” pelas quais os portugueses passaram para chegar à Ucrânia. Só a título de exemplo lembro-me de um adepto que disse ter feito escala em três sítios diferentes para chegar a Kiev onde teve que apanhar um comboio para chegar a Kharkiv ou ainda outro adepto que referiu ter atravessado a fronteira entre a Polónia e a Ucrânia a pé. 
As queixas sobre as deficientes redes de transportes públicos foram muitas e, como se não bastasse, junta-se a isto os preços exorbitantes dos hotéis. Vimos hotéis a cobrarem mil euros por noite (!),um insuficiente oferta de camas para a procura existente, residenciais com poucas ou nenhumas condições a cobrarem duzentos euros por noite, entre outras situações, o insólito foi presença comum neste Europeu Polónia/Ucrânia.
Como se não bastasse, no início do Europeu, tivemos o caso do adepto espanhol encontrado morto, dos confrontos entre adeptos da Rússia e adeptos polacos (que vão fazer com que a Rússia comece o apuramento para o Euro 2016 com seis pontos negativos), os jornalistas do jornal “A Bola” vítimas de extorsão por parte de polícias de Lviv, bilhetes do chamado mercado negro a serem vendidos à porta dos estádios à frente da impávida e serena polícia e, o toque especial de Platini. Depois de ter dito que gostava de uma final da Liga dos Campeões entre Real Madrid e Barcelona, agora o seu desejo fixou-se numa final entre Espanha e Alemanha. Como reagiria a imprensa e os adeptos portugueses se Mário Figueiredo desejasse que o campeão nacional fosse o FC Porto ou o Sporting? Ficaria bem a Fernando Gomes se este desejasse uma final da Taça de Portugal entre Benfica e Sporting?
Foi um Europeu com uma boa prestação da nossa selecção, mas com muitas deficiências de organização porque organização não é só ter estádios topo de gama com as mais recentes modernidades, organização vai muito para além do que uns estádios de última geração.
Agora que Portugal está de regresso a casa vamos voltar à nossa realidade futebolística. O mercado de transferências vai passar a estar mais activo pois os diários desportivos vão voltar a centrar as suas atenções nos três grandes. Voltam as manchetes com os paraguaios/uruguaios/argentinos/colombianos apontados ao Benfica, onde, pelo meio, o FC Porto tenta “desviar” um ou outro jogador. Volta a invasão de estrangeiros a ingressarem nos mais variados clubes, continuando-se a esquecer o valor dos portugueses. Depois da brilhante prestação da já esquecida selecção Sub-20, e com a boa prestação da Selecção Nacional no Euro 2012, que mais provas são precisas para justificar uma maior aposta no produto nacional?
No Benfica parece que essa aposta está a começar a ser efectivada através da contratação de Paulo Lopes, Luisinho e Hugo Vieira em adição à renovação de Miguel Vítor e de quatro ex-juniores que passam a seniores.
No FC Porto o cenário parece ser o contrário, depois de uma temporada em que o plantel contou com quatro portugueses (Emídio Rafael, Varela, Moutinho e Rolando), antevê-se a venda de Rolando e a não permanência de Castro e Beto. Na minha opinião, não vejo qual é o fundamento de se ter um guarda-redes suplente de Helton de nacionalidade brasileira, nem porque é que Miguel Lopes e Castro não são integrados no plantel principal.
O Sporting pode beneficiar dos regressos de Cedric e Adrien, até porque as suas limitações financeiras a isso obrigam.
Com o fim do Euro, regressam os casos de salários em atraso que não impedem nova debandada de brasileiros ingressarem no nosso campeonato (Gil Vicente e Trofense já começam a ser exemplo disso). Bons valores nacionais revelaram-se na época finda, destaco Luís Neto do Nacional (que poderia ser útil tanto para FC Porto como para Sporting), Salvador Agra do Olhanense (já vendido ao Bétis de Sevilha) e, num outro plano, o já esquecido e desterrado capitão da selecção vice-campeã mundial de Sub-20, Nuno Reis, defesa-central que deixou excelentes indicações nesse torneio mas que parece não ter valor para jogar no campeonato nacional.
Com o decorrer do Europeu outra situação parece ter esquecida, o fogo cerrado entre FC Porto, Sporting e Benfica leva-me a temer o regresso das bolas de golfe, os estádios a arder ou os autocarros com vidros partidos. Depois de um ano em que, no que concerne ao clássico FC Porto – Benfica não houveram situações graves a registar, cabe aos dirigentes dos clubes que tenham um comportamento cívico e contenção verbal para que não se despolete uma temporada de 2012/2013 em clima de guerra, o que me parece um pedido utópico.
Com o fim do Europeu, voltemos ao discurso onde o vencido não venceu porque o árbitro não deixou e o vencedor, mesmo apesar de campeão, foi prejudicado pela arbitragem.
Com o fim do Europeu, deixemos de falar de jogo jogado e voltemos a falar de salários em atraso, excesso de estrangeiros, guerra verbal entre dirigentes e, sobretudo, de arbitragens, porque assim é o futebol português.



publicado por João Maia às 13:43
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1 a zero:
De Steve Grácio a 6 de Julho de 2012 às 21:00
Em primeiro lugar, sê bem-vindo :)
Bom texto, realçando a grande lacuna do nosso futebol. Só nao concordo com a questão do Platini, como disse no meu texto.

Abraço, continua a escrever bons textos.


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