Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
Buzzer Beater

Estrelinha da Broadway continua a fazer das suas

 

Bom. Muito bom mesmo. Nesta época suis generis da NBA, o que a liga estava mesmo a precisar era de uma grande história de fazer correr tinta. Directamente dos New York Knicks, Jeremy Lin está numa ascenção meteórica para o estrelato. Jeremy quê? Pois é verdade, fixem bem o nome: Lin. Eu cá só lhe conhecia o nome de um ou dois resumos dos Golden State Warriors do ano passado, quando jogava um par de minutos por jogo, ou de um plantel de um qualquer jogo de computador, miseravelmente cotado na casa dos 50s ou 60s, demasiado pouco apelativo para alguém lhe pegar. Agora, o jovem atleta norte-americano, mas de ascendência chinesa e taiwanesa (o que está a recuperar um nicho de mercado da NBA na China, fragilizado após a reforma forçada de Yao Ming), está a revelar-se um base extremamente competente, que nos últimos 7 jogos, após ter-lhe sida dada a oportunidade de jogar contra os New Jersey Nets, bateu recordes de carreira averbando mais de 20 pontos nas 6 primeiras partidas, e 13 assistências na sétima, incluindo uma estupenda performance de 38 pontos contra os Lakers de Kobe Bryant.

Mas afinal de onde surgiu o fenómeno? Primeiro, estudou em Harvard. Ora, uma das universidades mais prestigiadas do mundo não costuma, porém, produzir atletas de grande qualidade. Isto significa que os olheiros não prestam muita atenção ao que se passa dentro das imediações de toda a rede Ivy League: os calendários desportivos diferentes das diferentes universidades na NCAA, que respondem aos altos padrões de exigência académica desta instituição, tiram logo crédito a muitos atletas que aí jogam. Resultado? Um jogador que não é escolhido no draft e se tem que fazer à vida, acabando por conseguir um contrato não garantido com os Golden State Warriors a época passada. As coisas não resultam bem: muito pouco altético, poucos minutos por jogo, e nada se vê que nunca se tenha visto antes. Além do mais, os Warriors, com Stephen Curry, não estavam a precisar de um base. Idem para os Houston Rockets, onde foi parar no início desta época, que tinham Kyle Lowry. Acontece então que com o excesso de talento na posição (Flynn e Dragic além de Lin), os Rockets precisaram de poupar espaço na folha de pagamentos e colocaram Lin à disposição nas waivers (local onde os jogadores não jogam pela sua equipa, e o seu salário é posto à disposição de outro clube, sem qualquer tipo de transacção), onde Nova Iorque foi buscar o jogador.

Mas em Nova Iorque o caso é distinto. Há meses à espera que Baron Davis volte da lesão e salve este caco de equipa do desastre, a equipa tinha experimentado, com algum sucesso, Iman Shumpert, rookie, na posição de base. Embora tenha resultado razoavelmente bem, o jogador tem características de base-extremo, posição 2, e não era o construtor de jogo que o treinador Mike D'Antoni, eterno estratega ofensivo, precisava para por a sua máquina de estrelas a funcionar. Com Carmelo Anthony e Amare Stoudemire a darem uma época desastrosa aos Knicks, a equipa esteve a passar um mau bocado. As outras soluções a base (Toney Douglas, Mike Bibby), não davam garantias. Toca de dar bons minutos a Lin vindo do banco. O resultado? 25 pontos! É verdade que foram muito fruto da pior defesa da NBA das últimas décadas, mas ainda assim, a aposta deu frutos. Tanto que no jogo seguinte, após lesão de Shumpert, o treinador aposta em Lin no 5 inicial contra Utah, e o resultado são 28 pontos. Eis que começava a loucura na Big Apple, e os Knicks a jogar melhor.

Duas coisas eu tenho vindo a perceber desde que acompanho de perto a NBA: a primeira, é que nenhum jogador lá está por acaso, seja por ter talento latente (mesmo que nunca se revele), uma característica específica em que é excepcional, ou simplesmente porque tem a vontade de ser melhor todos os dias e ser competente numa liga de gigantes. Lin insere-se no último conjunto, e talvez no primeiro, embora seja cedo para o dizer. A nível atlético está abaixo da média, mas tem os intangíveis de um base: visão de jogo. Ele pode ser a resposta para Nova Iorque, que precisa desesperadamente de um base que organize tamanha confusão de estrelas ofensivamente eficientes e de uma equipa que simplesmente tem parecido desregulada. A segunda coisa é que os New York Knicks não são uma equipa com uma estrutura competente para o basquetebol. Isso mesmo. Mesmo apesar de Lin estar-se a revelar uma aposta sólida da equipa, a verdade é que com os anos disparates atrás de disparates têm sido feitos para montar esta equipa no momento, e os resultados estão à vista. A época passada pareceu haver um novo rumo com a contratação de Amare Stoudemire, e a equipa estava a subir, mas aquando da contratação de Anthony aos Nuggets, em troca de demasiado talento jovem e promissor (e mais barato e de menor manutenção), contra as ideias do director-geral (esta transacção teve o dedo do proprietário, Jim Dolan, que é muito bom a gerir um negócio que faz mais dinheiro que qualquer outro na NBA, e a buscar por Anthony foi mais uma forma de ir buscar receitas de publicidade e merchandising, e não de ganhar campeonatos). Isto revela uma falta de coerência tremenda, sem apostar nos valores seguros e de baixo-risco que possuiam. Não sei ao certo qual será o tecto de Jeremy Lin, mas pelo menos ele parece resolver o problema desta disfunção de equipa, por agora.

Não creio ainda que lutem pelo título, embora o lugar no playoff pareça agora mais seguro. E pelo caminho, vão-se vendendo mais camisolas, vencendo mais jogos, e criando mais esperança. Mas em Nova Iorque tudo é demasiado efémero, e até agora a minha opinião da organização começa a mudar um pouco, apesar de me parecer que as prioridades estejam muito erradas. Duas boas escolhas de draft em escolhas já muito avançadas parece-me um começo (Fields o ano passado e Shumpert este ano), bem como uma contratação providencial de Lin. Mas ainda estou confiante que nem os Knicks estavam à espera disto.



publicado por Óscar Morgado às 11:50
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